segunda-feira, 16 de julho de 2018

Submersão

Submersão 



Deitada no meu quarto vejo entre os lençóis
O movimento de alguém se arrumando para sair
Não sei que horas são, porque varia

Tem vezes que sai de noite, de madrugada
De manhãzinha, depois do amor
Não adianta segurar, pois sempre saem

Sei exatamente como chegam
Com suas frases muitas vezes já ouvidas
Em outras ocasiões, situações e dentro de afetivas prisões

Chegam e como sou jovem, não tenho só um segredo
Um desejo profundo, posso ainda realizar algum dia
A evolução da medicina me deixa escolher o rostinho
O tom da pele e a profissão do progenitor na hora que eu quiser

Não preciso de homem nenhum para esse fim
Imagina, um bebezinho dentro dum vidrinho
Esperando o momento certo para ver
A luz divina que rege a vida

Olho para o criado mudo, a luminária se acende
E alguém pega um relógio de pulso, a carteira
E parte de minha vida e simplesmente atravessa a porta
E some, nas lembranças frescas dos meus pensamentos

Já foram tantos Marcos, Pedros, Guilhermes, Rodrigos
Filipes, Carlos, que já deixei entrar e fazia o que pudia
Para que ficassem e partiram sempre de forma conturbada

Acho bonito, quando um casal termina
E um ou outro da a seguinte explicação para o término
Terminamos em comum acordo, sentamos e conversamos
E decidimos, que era hora de dar um fim

Na realidade, acredito na reciprocidade
No início de um relacionamento e fico bem cética
Quando a tal reciprocidade é estampada no término

Mas hoje, não me sinto tão sozinha
Não sei como explicar a sensação
De estar bem consigo mesma

Amanhã provavelmente outro usará o meu guarda-roupa
Ficará jogado no sofá assistindo televisão com a pia lotada
De louça pra lavar, chegarei cansada do trabalho, arrumarei toda a bagunça

Arrumarei o jantar e ele o comerá, não elogiará o tempero como antes
Não perguntará como foi meu dia, o que fiz ou não deu pra fazer
Em razão do tempo apertado do almoço

Não perguntará se aquela dor no ombro ainda dói
Não perguntará sobre a consulta no ginecologista
Se consegui remarcar ou não, não me olhará nos meu olhos
Não lavará o próprio prato que acabou de jantar
E quando finalmente abrir a boca, falará apenas de si
E como o mundo é insensível com ele

Depois de cansada de mais um dia, irei para o quarto
Finalmente descansar, como é poético pensar assim
Esqueci, ainda tenho de satisfazer as vontades do meu namorado, ficante
Senão, vai dizer que devo ter um amante
 
Me lembro de um título de uma música do Air Supply 
Que sintetiza esses momentos: Making Love Out Of Nothing At All
E o dia passa e o outro vem e a famigerada rotina se instala
E como um cão que foi dado a contragosto, me acostumo com ele

Dou carinho, faço cafuné, levo pra passear
E quando tenho que viajar por qualquer motivo
Deixo bastante comida e água para que o companheiro
Não morra de fome

O próximo que eu namorar, vou sentenciar ; que me veja a cada semana
De quinze e quinze dias. Umas duas ou três vezes no mês
Como fosse possível viver assim. Como fosse possível alguém aceitar isso
Não me importo, dessa vez vai ser assim. Vou vencer as ausências afetivas

Como disse anteriormente, não estou me sentindo sozinha
Estou boiando sobre o mar que me acolheu, sem pressa
Sem fazer julgamentos ou criar expectativas
Estou quase completamente envolvida

Não tenho medo se o tempo virar
Se a superfície do mar formar ondas
Ou se o mar querer me tragar para dentro dele

Estamos juntos e fisicamente separados
Porém, unidos com um desejo simples de sentir
O amor um do outro, apesar das turbulências
Que cercam as nossas vidas.

                                          Autor: Everton Alves.


Nenhum comentário:

Postar um comentário