terça-feira, 24 de julho de 2018

O Teu Riso

O Teu Riso 


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o seu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor,
na hora mais obscura
desfia seu riso, e se de súbito
vires que meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso serás
para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu sorriso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu sorriso nunca,
porque sem ele morreria.

          Autor: Pablo Neruda ( 12 de julho 1904 - 23 de setembro 1973 ).


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