O Monte Jayanti
O sol a pino na planície nepalense . Fui buscar
Paz de espírito e entender a minha vida , que
Está sempre desconectando de algum lugar .
Parece que certas coisas não estão
Se encaixando
Vi na televisão que os gurus daqui , curam
Os males espirituais dos viajantes . Com um
Ritual de preces e mantras que são repetidos
Inúmeras vezes até chegar num estado zen ,
De plenitude
Peguei um vôo até a vila no pé da montanha
Samyukta , onde os sábios passam sua terapia
Revigorante num pequeno templo quase no
Cume da montanha
Saí da cidade onde estava , já faz 2 dias . E
Ainda tenho 3 dias de peregrinação solitária .
No caminho , buscando o sagrado que me espera
No alto daquele monte
Meu guia nessa aventura é um senhor de
Meia idade chamado Saroj Kumar Jha que é
Muito animado , tem uma alegria que transparece
Além das nossas diferenças no idioma , na
Resolução de problemas e obstáculos
Que aparecem no nosso trajeto
Ele tem uma esposa e uma filhinha . Não sou
Muito aberto para falar da minha família , e
Das pessoas que tenho alguma ligação afetiva .
Sou divorciado e não contei isso para ele . Apenas
Para não nos perdemos , nas conversas amistosas .
E esquecermos do objetivo a qual eu me dispus
A vir até aqui
Praticamente metade da distância do mundo !
Se tivesse um pouco mais de dinheiro e tempo
Iria até o Japão
Começou a chover uma chuva grossa , nos
Obrigando a fazer uma parada no povoado
De Aayusha a vila do bisão . Animal adorado
Pela cultura local
Ficamos debaixo de uma marquise de uma
Vendinha e achava estranho casas tão simples ,
Cheias de remendos , sem pinturas , com as madeiras
Podres das portas e janelas . E todas as casas a um
Bom tempo sem uma reforma
E mesmo com tão pouco ; vejo um pouco
De alegria nos seus rostos correndo debaixo
Da chuva , das mulheres, dos homens e as crianças
Pulando nas poças de água , e não ligando em tomar
Um banho de chuva
A tormenta deu uma trégua . E começamos a
Nos movimentar para o destino final . Coloquei
A mochila e cada passo que dava me sentia mais
Aliviado , sensação estranha que não dá para
Expressar em palavras
E lembrei daquela que procuro entender e esquecer !
Que muito me magoou ; não pelas palavras ditas e sim
Por aquelas omitidas . Sofrer por algo que não foi dito ,
Esse é um bom motivo , para ir para longe de tudo
Porque não fala o que senti ?
Tem sempre que esconder da gente
E um pensamento vago vem na mente, de um
Tempo antes da viagem, quando te amava muito e
Sempre tinha aquele capacho humano aos seus pés .
Creio que ainda está a te rondar , como um bom
Cachorro que não larga o osso . Me afasto do tipo de
Homem que esse tal Saulo de Tarso convertido se sujeita .
Se sujeita a ser apenas o amigo da friendzone e mais nada .
Trocam frases arcaicas em pleno século XXI . Não absorveram
O clima da atualidade . Até o jeito de falar , se expressar e ser
Um homem subjugado , ao charme de uma mulher mais nova
O que não faz um senhor da 3ª idade , para se sentir no meio
Da juventude . Mas é tão burro , que nunca a terá deitada ao seu
Lado depois de um momento tórrido de amor . Do outro lado
Da cama , do carro , da vida
Um homem que se contenta em ser trouxa ; em parecer trouxa ,
Em ser percebido como trouxa . E o pior , saber e se sentir trouxa .
Por uma mulher que tem outros atributos , além da beleza que
Você segue cegamente . Como uma ordinária luz , fraquinha
Na imensidão da noite
Sai dessa ! Ainda há tempo . Se ele pudesse me ler , encontraria
Uma forma de virar o jogo a seu favor . E não ser um escravo das
Migalhas , jogadas aos pombos da praça
Chego até o templo , com uma cara bem características das
Construções daqui . Não tinha ninguém . O guia disse que eles
Passam o dia pastorando e cuidando de suas agriculturas . E
Mais de tardinha eles retornariam
Fiquei sentado dentro de uma sala e o guia foi visitar o
Local que ele frequentava na infância até quase a idade
Da adolescência . E fiquei reparando na mesinha no canto ,
Num tom vermelho chamuscado
Parecendo que sobreviveu algum episódio de incêndio .
Mas não aqui , pois a estrutura não tem sinais que foi
Acometida pelo fogo . Nem num período mais antigo e
Nem atualmente
Que história pode contar esse móvel ? Quem o fabricou ?
Por quantos lugares frequentou ? Até parar num determinado
Lugar e ser atacado pelas chamas , que hora destroem para
Dar vida a posteriori
E em cima , uma cuia desenhada com as gravuras locais . E
Tem uma rachadura , falta um pedaço considerável . Como
Pode alguém beber sopa ali , seria uma desvantagem com os demais .
Sempre achar que seu conteúdo não está completo ou que
Falta algo para ser inteiro
E tinha umas ervas queimadas , que exalavam um aroma
Adocicado . Sempre quando temos uma vaga noção desses lugares
Não imaginamos que utilizem nos seus rituais matérias locais .
Estamos sempre com o pensamento , incenso queimando e
Um mantra simples - Aaa Uuuum - , sendo repetido a exaustão .
Aproveitei o momento sozinho para descansar . E de repente ,
Uma senhora aparece e me pergunta : Se estou perdido ?
Respondi : Que estou procurando alivio para minhas aflições ,
Dores que acometem minha alma e coração , magoado pela
Deusa da tempestade
Ela diz , para refazer o caminho da cidade onde comecei a
Minha jornada . E chegando lá , retornar para ouvir os
Ensinamentos que irão por fim ao meu sofrimento .
Senhora , não tem como . Já estou nesse país há 5 dias ,
Tenho só mais 2 dias de estada , depois vou ter
Que voltar para casa
E a mestra que atende os moradores da região , esses dias
Ela se encontra adoentada . E está internada , para se recuperar .
Na cidade que fica a 2 dias e meio de viagem . Me desculpe ,
se não lhe dou boas notícias
Que isso senhora , que bom que me disse o que ocorreu .
Senão , ficaria agarrado aqui até a tardinha . Vou procurar o
Meu guia e retornarei para a vila . E depois , para a cidade que
Tão bem me acolheu
Rapaz ! Me deixa lhe dar uma lembrança do templo . Toma
Essa profusão de ervas , envolvidas nesse tecido . Obrigado ,
Senhora fique em paz ! Que a paz lhe acompanhe ,
Até a sua terra
Desci a montanha com um ar decepcionado , por atravessar
Meio mundo atoa . Passei pela vila e me despedi de alguns
Moradores . E fui direto para o hotel e na varandinha
Resolvi acender as ervas . Para aromatizar o ambiente .
Me deixar mais próximo daquele lugar mágico , a qual visitei
Desembrulho o ramalhete com diversas folhas ressecadas
E retiro o pano vermelho escuro . E lembro da mulher
A qual amo . E que por algum motivo , está querendo ficar
Distante desse homem que a ama
Vou utilizar um pedaço desse pano como braseiro . E assim ,
Fazer que as chamas virem cinzas . Que vão agir mais
Tempo consumindo as ervas
Quando começo a abri-lo para cortá-lo , vejo que há uma
inscrição feita do punho de alguém . São palavras de um
certo alguém chamado Krishnamurti , que diz :
" Yadi hāmī vāstavamā samasyā bujhdachauṁ bhanē ,
javāpha uhām̐bāṭa ā'unuhunēcha , kinabhanē javāpha samasyābāṭa alaga chaina ."
Autor: Everton Alves.

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