A Flor Enluarada
Esse rio ninguém conhece . E , ele próprio se desconhece .
Ele é um rio intermitente , com as mudanças das estações que
Hoje em dia não são bem marcadas
Me lembro dele quando era um fiozinho d'água escorrendo
Entre as pedras e os lodos . Era tão comum e ordinário , que ninguém
Dava nada por ele . Ninguém se importava ; era desimportante
E vinha o período da estiagem . E ele sumia . E por milagre na
Sua nascente , um pouco de água límpida era possível ver , no
Meio da grota dos amores que nos enganam
Desde que me lembro , ele nunca desistiu . Mesmo que as
Estações sempre o deixavam abandonado a sua própria sorte .
Como um bambu que enverga perante a mais raivosa tempestade ,
Mas com um olhar de indiferença , quebra-se ao meio ; na brisa
Feita pelas asas apressadas e delicadas de um beija-flor
Ele é persistente . Mesmo com tudo contra ele . Está ali
Pulsando vida , do jeito dele . Mais uma vez , as estações o deixaram
Sozinho . E na solidão se volta para a única planta em todo a floresta ,
Que ainda mesmo virada para outros caminhos , traz consolo ao
Seu coração . Que tinha tudo para ser frio e duro feito pedra na
Sua triste desilusão
Mas , brilha se a luz do luar o incidir numa determinada direção .
É ouro bem brilhoso de aluvião . Um rio que emana luz de forma
Improvável , recorrentemente no ambiente frio da solidão
De uns meses para cá , dava um prazer enorme em ver o rio caudaloso .
Molhando as margens , dando vida para a floresta . E tudo era tão vistoso .
Não consigo expressar com palavras , como um ser de água foi deixado
Abandonado da pior forma ; sem saber do fato . Ele trazia harmonia para
Uma margem irregular , que quando era dia queria ser noite e quando
Era noite ; esquecia que era margem
Nunca tinha visto um enlace tão bonito . Até que uns dias para trás ,
A margem começou a querer matar o rio . Silenciar sua voz tão bonita ,
Que poucos conseguiam apreciar na queda d'água
Ela começou a desbarrancar suas margens para dentro dele . Não se engane ,
Não vá pensando que são suas melhores partes ; as árvores frondosas ,
A mata exuberante , os animais únicos , o ar refrescante . Ela quis silenciá-lo
E por tabela matá-lo . De uma vez , sem deixar testemunhas . Só não
Estava esperando que um pescador , tira mais poesia do seu labor
Que qualquer escritor
E começou a empurrar tudo que nela não prestava ; a areia da incompreensão ,
As raízes da dúvidas , as árvores mortas da sua pequenez , a terra árida das
Suas mentiras , as palafitas dos seus medos , o rejeito da sua alma sofrida
O rio sem entender o que estava acontecendo , tentou em vão acalmar
Aquilo que desconhecia . Naquela sinuosa margem em que tanto amou .
Ela irredutível , ser de alma pequena e pensamento premeditado , empurrou
Tudo que simboliza a suas amarguras e limitações para o rio
Nunca na minha vida vou esquecer , aquela pororoca . Onde aquele rio forte ,
Caudaloso , cheio de esperança ; que amava todos os dias a natureza que
Ele fez brotar , nas margens secas de outrora . Sendo assoreado , pela margem .
Com sua auto baixa estima tão presente , mesmo nos meses de
Inúmeras felicidades
Hoje o rio secou . De onde ele está , não consegue ver , sentir , saber ou
Vislumbrar na reminiscência a margem ; antes tão cheia de vida juntos .
E agora , nesse filete só resta pedras ; areia , folhas secas , o céu , o sol ,
A noite , o frio , uma metade da roda de uma carroça e duas pétalas da flor
Que um dia simbolizou o ciclo imperfeito do amor .
Autor: Everton Alves.

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