domingo, 30 de setembro de 2018

Sócrates e Cleópatra

Sócrates e Cleópatra 


Andando com dificuldade , desço a rua que dá acesso
Ao meu apartamento , o meu corpo já não tem a mesma
Vitalidade de antes . Chego e olho as escadas . São seis
Lances que não acabam , até chegar na minha casa

Operei o joelho esquerdo , faz uns sete anos e ainda sinto
Volta e meia , umas fisgadas no local da operação .
Opto pelo elevador . Na minha idade não é bom nem pensar
Em levar um tombo . Dou boa tarde para a acessorista e
Digo qual andar irei parar . Boa moça , sempre solícita aos
Moradores e visitantes . Chego e vou andando com um
Pouco de dificuldade

Tudo porque além de velho , quero fazer coisas que não
São próprias da minha idade . Fui levar o lixo do apartamento
Da vizinha para rua . Ela está com uma obra para o aumento
Da cozinha . Se eu me lembre será tipo aquelas cozinhas
Americanas e tinha uma saco com um resto de entulho e
De forma cavalheira me ofereci para levar

E ela disse que não precisava . Logo eu , um senhor na minha idade ,
Que não aguenta um gato pelo rabo , mas gosto de me sentir
Jovem e relacionar com esses jovens . Sentir , nem que seja no
Meio de uma fantasia , relembrar meus tempos juvenis

Levei e agora volto com uma baita dor na minha coluna .
Vai entender , fiz um gesto simples para a vizinha , que além
De jovem é bonita . Isso me atrai um bocado , mas não tem
Como esconder minha cabeça meio calva , com poucos
Cabelos numa tonalidade branca

Cheguei e vou tomar um banho . Não gosto de sentir a roupa
Grudada ao corpo . Como a água estava boa , agora irei comer
Alguma coisa na cozinha . E vou ficar em casa , minhas costas
Estão me incomodando.

E apesar disso , tem uma moça . Que já faz um tempo , é minha fã
Número um . Sempre converso com ela , faço charminho , fico
Um tempo sem aparecer . E quando volto , faço como o cachorro que
Caiu da mudança . Se ela falar rola eu rolo , deitar eu deito ,
Latir eu falo . E se ela quiser , até abano o rabinho

Sei que você vai pensar? Onde está meu amor próprio . Te respondo :
Em algum lugar . Não se preocupe , depois eu volto a ser o homem
Que realmente sou , aquele que ela não conhece . Ela é uma mulher
De meia idade com alma antiga , vocabulário antigo . E eu sou um
Velho com alma velha , vocabulário centenário do século passado ,
E astúcia de uma raposa .

Pois , de uns tempos para cá , apareceu um rapaz querendo bagunçar
O meu coreto . Depois de tudo ; vivendo como se chama?
Numa deliciosa friendzone com ela . Não me importo em receber migalhas .
Tem uma coisa que sempre me incomodou , sou doido para conhecê-la
Pessoalmente . Mas , ela sempre desconversa . Diz que é uma mulher
Muito atarefada e anda sem tempo até para ela

Como disse , ela larga as migalhas e eu vou atrás . Então , eu continuo
Tentando e ela por sua vez continua me evitando . E aos poucos vou
Trazendo-a para o meu lado . Porém , o grande entrave que vejo , e questão
Primordial . Sou um velho . Querendo uma moça sendo velho no falar ,
Escrever e até em me expressar .

Isso tudo não é importante . Pois , ela gosta . Gosta tanto que me domina .
E eu como um servo , realizo todos seus caprichos . E vou recitar um
Verso sem sentido nenhum , que ela finge entender .
Assim me prendendo num jogo sem eu perceber :

O vovô garoto e a Cronista

Bebo de forma equitativa
Cada conto de sensualidade
Que envolto na fantasia esbelta
Dos seus lábios cálidos
Que embriagado teimo desfrutar

Do calor vago da melodia
A sua árida e envolvente sedução
Fixa sua luxuriante lamúria
Energicamente , sou devoto da energia
Que rejuvenesço aliviado

No pensamento daquilo que desejo
Escondo a escuridão vibrante
O encantamento brota e tento controlar
A linguagem daquilo que demora

Transparente e descontente pelo tesouro
Ofertado , reflete minha solidão e pequenez
O seu olhar só mostra o meu eu decadente ,
Refletindo o contexto no pretexto

Me conduz gradativamente para ausência
Experimentada e fico esperançoso
No encalço , no rastro , das suas pegadas
Que me ferem e me faz capacho do desejo .

Quando digo nada com coisa nenhuma . E cito um ou dois autores
Conhecidos e um punhado que ela desconhece , parecendo um
Diplomata do Itamaraty . No fim das contas engano e
Sou enganado por ela

E vamos dançando essa valsa infinita . Eu querendo terminar
A dança e levá-la para minha cama . E ela me enrolando até o
Fim dos tempos . Pois , ela sabe que não irei demorar
Para virar o cabo da boa esperança .


                                          Autor: Everton Alves.



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